ESTÓRIAS DE QUEM ESTEVE LÁ
 

Wilson Duarte de Araújo – Tenente Coronel BM QOC/80
Ex-Aluno do Curso Especial de Salvamento no Mar _ CESM/02
Comandante da Academia de Bombeiro Militar D.Pedro II - CBMERJ

 
 

Nos idos de 1984 um grupo de cerca de 150 bombeiros do Rio de Janeiro iniciaram um projeto que marcaria para sempre as suas vidas. Com 22 anos, segundo tenente e muita disposição, pude ver naquela oportunidade a chance de me tornar um guarda-vidas.
 

Fomos selecionados então entre centenas de outros bombeiros, com critérios que levavam em conta mais que ser exímio nadador, o que a maioria de nós não era, o fato de querer ser guarda-vidas.

 

 
     
 

Até então os objetivos não eram muito claros. O SALVAMAR, ligado a Polícia Civil carioca, era o responsável pela segurança nas praias. Não sabíamos muito bem onde nos “encaixaríamos”, mas a possibilidade de estar na praia e salvar vidas, a todos seduziam.
 

Ônibus dos bombeiros, no início íamos num misto de ansiedade e medo. A chegada ao final da “Via 9”, primeira vista do mar, o suspense... “O Mar está glass...? Não! Tá grande pra c...!!! No Camping da Praia da Macumba desembarcávamos. A estrutura, mesmo nos dias de hoje, era de dar inveja. Tínhamos tudo: instalações, pessoal, equipamento, ótima alimentação e um cara obstinado em nos formar. O Major Barros, à frente de seus homens, a maioria soldados recém saídos da primeira turma de guarda-vidas, estava decidido a tirar de nós o melhor e também o pior. Os oficiais éramos cinco, os primeiros a participar de um curso militar junto com praças no CBMERJ, aliás, também o primeiro curso de especialização da Corporação.
 

Na época, reciclamos nossos conceitos e nos colocamos à prova. Nossa turma tinha de tudo: bombeirão, bombeirinho; corneteiro, marombeiro; coroas, gordinhos e faquires; mas todos BOMBEIROS.
 

A primeira corridinha na “fofa” foi a morte! __ “Como é que vamos agüentar isso?” __ tínhamos corrido pouco mais de 300 metros e não conseguíamos nem respirar. Nossos pés se enterravam na areia. As pernas inchavam e doíam terrivelmente... Aos poucos, inacreditavelmente fomos nos adaptando. As corridas nos davam prazer e já ansiávamos por entrar no mar. E entramos. Dias e dias nadando no “valão” ao longo da praia debaixo do “quebra coco”. A dificuldade era se manter na água. A todo o momento éramos atirados na areia, sendo imediatamente reconduzidos, por nossos diligentes instrutores e monitores, de volta às enormes ondas que se formavam ali, bem na beirinha!
 

Costumava sempre me perguntar o que aquelas repetições poderiam nos proporcionar. Era uma briga que não podíamos ganhar. O mar, e especialmente aquele da praia da Macumba, parecia sempre estar contra nós e como se já não bastasse; todos aqueles instrutores e monitores, principalmente os do SALVAMAR, pareciam ter um acordo secreto com ele. Bastava os alunos fazerem menção de entrar, e o mar crescia.
 

Iniciamos os percursos e pouco mais de 20 dias de curso nos colocaram para contornar a Pedra do Recreio. Nadávamos por fora quando um de nós começou a gritar por socorro. Foi uma loucura! Todos os que estavam em melhores condições voltavam para resgatar os companheiros em apuros. Felizmente, mas com alguns arranhões conseguimos subir pelo costão de fora sobre as “cracas”. Todos nós nos saímos bem. O incidente rendeu muito. Um clima de rivalidade já se acirrava entre nós e os GV do SALVAMAR. As críticas, a tentativa do CBMERJ em formar guarda-vidas cresciam. Os jornais da época estamparam charges jocosas em alusão ao fato. Costumava-se dizer que bombeiros não tinham perfil de guarda-vidas. Guarda-vidas mora perto do mar. Bombeiro, na Zona Oeste e Subúrbio além de andar de trem. “Aonde já se viu: guarda–vidas de Japeri!?” ou “Estes caras vão todos morrer afogados ...”.
 

Nossos treinamentos se intensificaram. Nossos instrutores do SALVAMAR, alheios ao clima dos demais, dedicavam-se com afinco em nos colocarem aptos a atuar o quanto antes nas praias. Lembro-me com saudades (!?) daquele instrutor paraibinha. O Alencar ___ bichinho danadinho, dono de um vastíssimo vocabulário acadêmico: água, água, água, água... Ralou muito meu grupo da turma A1. Seu Jorge ___ paizão e o Neil, na época zen.
 

Aos poucos e com a extinção do SALVAMAR, nossa eficiência foi sendo reconhecida. Durante a semana estávamos no curso, aos finais, na praia de serviço nos postos. Mesmo aqueles de Japeri, já tinham um jeitão de GV; roupas coloridas, confortáveis, óculos escuros esportivos, cabelos muito curtos e a pele super bronzeada __ com a marca indefectível da camiseta branca __ os músculos à mostra e aquele olhar inquieto, fixo no mar, já nos distinguia dos demais.
 

Algumas místicas e termos começaram a fazer parte de nossas vidas e linguajar; A estória de Eddi Aikao ___ foi guarda-vidas do Hawai ..., bigode __ nem pensar! Não dar de costas pro mar, nem mesmo ao sair dele, virar o leme___ jamais! O nado “Michael Jackson”, a camiseta vermelha __ privativa dos guarda-vidas de então, as musiquinhas __ eu fico contente quando o mar esta de ressaca..., e aquela máxima: “Todo o guarda-vidas é um bombeiro, mas nem todo bombeiro é guarda-vidas”. Nossa! Que mudança radical!
 

Tínhamos um novo estilo de vida e uma responsabilidade enorme pela frente: assumíamos o Serviço de Salvamento de Praias no Estado. Tínhamos a missão de cobrir toda a extensão de praias com um pouco mais de 180 homens, sendo um pouco mais de 100 da minha turma, ainda em formação, muitos já haviam desistido. Quem pedia desligamento ia “na paz”, com oito dias de detenção e as “bênçãos” do Major Barros para o GMar em Botafogo.
 

Naquele curso aprendi que o guarda-vidas a tudo se adapta e supera. Tínhamos chegado na “praia”, e à despeito da expectativa geral de falharmos, aqui estamos!
 

Naquele verão de 1984/85 atuamos de domingo a domingo. Caímos para fazer socorros em todas as praias. Tivemos o medo e o orgulho de estar, em meio a todos, fazendo socorros com desenvoltura e profissionalismo, lado a lado; oficiais, graduados e praças. Estancamos a tendência do aumento de óbitos e aumentamos em muito o número de socorros. Atuávamos de forma preventiva, apitando como loucos quando algum afogado em potencial ___ brancão, desajeitado, e com pinta de praticante do nado estilo “corta jaca” ___ se aproximava perigosamente de uma vala, quase cabeceando a placa de “perigo correnteza”, que ignoravam solenemente.
 

Quem não se lembra do “Galo Cego” de Copa, do Godinho, o “Campanha”, do Monteiro “B... Baixa” e outros tantos, que desafiando a lógica, superaram suas deficiências de biótipo fazendo socorros na praia. Todos eles, tornaram-se guarda-vidas excepcionais e ao longo dos anos, em nada deveram aos mais bem preparados.
 

Por sermos bombeiros, todos nós já havíamos tido a oportunidade de atuar em salvamentos. Todavia, aquela nova atividade me causava uma especial impressão: O fato de ter nas mãos, no sentido literal, a chance de proporcionar uma nova chance de vida a um afogado, me levou ao êxtase por muitas vezes.
 

Parando pra pensar; aquele garoto de uns 16 anos, primeiro afogado que tirei em Ipanema, ainda como aluno de camiseta branca __ e que não nos leia o Coronel Marco Silva, não registrei __ penso hoje ter uns 36 anos; talvez mulher, filhos, e outros tantos que estes virão a ter. Certamente, se lá não estivesse, pronto e adestrado, não só ele, mas todas as outras vidas, que através dele possam ter vindo ou virão, simplesmente não existiriam. Teriam seus destinos selados, como muitos outros, por quem, infelizmente, nada pudemos fazer ao longo de seguidos Verões.
 

Quantas outras profissões existem, que nos faz sentir assim tão poderoso e ao mesmo tempo, tão altruísta. Se a Bíblia nos ensina a “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, éramos mais, muito mais! Parafraseando ainda o Major Barros: “Amávamos ao próximo (MAIS) que a nós mesmos” e me lembro como hoje, findo os trabalhos no Dia dos Pais de 1984, mais um final de semana em que “dobramos que nem papel”, nos reunimos para um daqueles “papos cabeça” que nos estimulavam a continuar sem esmorecer, nos foi dito que naquela noite, certamente, muitas famílias estariam levantando um brinde aos guarda-vidas, por que graças a eles, seus pais haviam retornado aos seus lares.
 

Enfim, encaramos aquela missão, de levar adiante o trabalho dos que nos antecederam no serviço de salvamento mais antigo do Brasil. Com o passar do tempo, nos tornamos o mais eficiente e profissional serviço de salvamento aquático do Brasil e um dos melhores do mundo, dado o número de profissionais “full time” e dedicação exclusiva que possuímos.
 

Com a garra característica dos bombeiros e a alma daqueles que vieram ao mundo para salvar, evoluímos. E entre idas e vindas e discordâncias fundamentais, temos todos a certeza de que no fim, todos nós guarda-vidas, somos irmãos unidos em prol da mesma causa: SALVAR! A qualquer hora, com qualquer tempo, com qualquer mar.